segunda-feira, 20 de outubro de 2014


Eu disse eu te amo. E ele foi embora.

Isso nunca tinha acontecido comigo antes, alguém terminar comigo por telefone. Foi inédito.

Estava tentando me lembrar, há pouco, se já tinha vivido algo assim, ou se já tinha feito algo do tipo com alguém com quem tenha me envolvido de verdade, intensamente. Vivi términos mal resolvidos, mas sempre acabados por conversas na base do olho no olho. Nunca tinha ocorrido algo assim, tão pós-moderno e virtual.

Nunca terminei nada com alguém com quem me relacionei de verdade por "zap zap"...well, sempre é tempo. E também nunca encerrei encontros superficiais de forma grosseira. Acho isso muito feio e desnecessário. Pois bem, como se diz, "sea bienvenido ao club".

E tenho então mais uma história de (des)amor pro meu caderninho de lembranças.

No começo, ele estava mais interessado em mim do que eu nele.
Depois, comecei a gostar, e deu-se o necessário equilíbrio entre os "gostares".
Eu contei histórias, inventei vitórias, fui genuinamente eu.

Ele, aparentemente, gostou mais ainda do que a cada dia ia conhecendo e vendo.
E me chamava carinho e curiosamente de "bittersweet", ou seja, doce amargo...só depois fui entender o porquê disso.

Seguimos juntos por dias a fio, bem juntos. No supermercado, no elevador, na piscina, no banho e no banheiro, na cama e na cozinha, na varanda à luz de velas, em festas, reuniões chatas e legais, shows, parques e centros de exposições, restaurantes, cafés e bares. Faltou o cinema, mas só faltou porque não deu tempo.

Estávamos cogitando uma viagem e uma experiência sexual a três. Presumi que estava, então, de fato, praticamente namorando. Ele não negou. Ao contrário, de forma sutil, começou a sugerir que ficaria feliz se eu lhe desse uma certa exclusividade. Mostrou-se até ciumento. Fiquei envaidecida.

Diante dessa evolução dos fatos, e da exigência de cortar histórias paralelas com outros affairs, eu pedi um tempo, mas um tempo breve, de um dia. 

Parei, pensei, hesitei, consultei amigas e, no final, pensei: quer saber? Vou entrar nessa história. Não havia motivos para não entrar. Aceitei, acolhi e cuidei. Ele, idem. Trouxe desodorante e lhe dei uma escova de dentes.

Fez de minha casa um pouso para onde ele sempre vinha, ainda que fugindo do mundo, de seus problemas. E, de fato, ele estava realmente fugindo. Falávamos-nos todos os dias, sobre tudo o que estava acontecendo em nossas vidas quando não estávamos juntos, do banal ao sério. Ríamos muito, tocávamos e cantávamos juntos, e ele aperfeiçoava meu inglês.

Consertou objetos e fez reparos na minha casa, resolveu problemas de instalação elétrica e hidráulica. Enfim, deu um trato não só em mim, mas em tudo no geral. Fiquei feliz!

Nesse esconderijo que, para ele, minha casa representava, ele se privava, de certa forma, de pensar sobre seus problemas. Eu, com ingenuidade, achava que quando ele estava aqui, estava inteiro. Só que não. Ele estava de corpo presente, mas sua cabeça e seus pensamentos não necessariamente estavam. Ainda assim, por muitas noites e dias, ele aqui se aconchegou, se deixou cuidar, me cuidou e me encantou.

O conceito de "amor", prá mim, especialmente quando dito e declarado no início de uma relação que ainda está se construindo, pode ter muitos significados, mas, definitivamente, tem muito pouco de cobrança.

Ao dizer isso espontânea e aleatoriamente a ele, não esperei resposta. Ao contrário, disse porque, além de ter bebido e de estar me sentindo feliz e eufórica, estava com vontade.

E ao dizê-lo, meio que de longe, a uma distancia segura, precisando inclusive elevar o tom de voz para que ele ouvisse, logo me virei e voltei a conversar com meus amigos. Estávamos numa festa. 

Ele, por sua vez, entrou em crise.

Entendi, depois, que para ele, o "eu te amo" é como um cadeado; uma cela, uma prisão, uma viagem com passagem só de ida. Mas eu não sabia disso.

Me apaixono todos os dias. Amo duas ou três vezes por ano e, nesses casos, prá vida toda, ainda que eles, nenhum deles, hoje esteja mais ao meu lado.

E assim foi que, ao ouvir essas palavras "tão duras", esse homem, a quem eu já considerava meu "namorado", chegou à conclusão de que deveria partir. E, de fato, partiu.

O que antes era motivo de admiração dele por mim, instantaneamente, à la miojo, ou seja, em questão de poucos minutos, virou crítica e julgamento. Meu comportamento, minha liberdade, minha espontaneidade, minhas histórias, tudo.

E assim foi que ele sumiu e, me comunicou por telefone que estava chegando à conclusão de que não queria mais ter uma relação comigo. Pior. De que não queria ter "nada" comigo. E fez parecer que nunca nem sequer chegamos a nos conhecer, a nos encontrar, a nos envolver.  

Um grande amigo, artista e poeta de boteco, a quem já declarei nutrir imensa paixão e amor, além de admiração e amizade prá sempre, usa a expressão (que também passou a compor o meu vocabulário para resumir e explicar em poucas palavras esses eventos da vida tão ordinários aos quais nos submetemos) que é: "ces't la fucking vie".

A música aí debaixo que esse amigo me mostrou, da banda The Slikes, leva essa nome. Já outro amigo, para essas situações, costuma me dizer: "Clarisse...segue o jogo".


E assim é a porra da vida! E que diabo fazer nesses casos senão tomar vinho?



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