terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Bucha



Eis, então, que decidi tornar essa coisa pública (e isso não a ver com a res publica, do latim, coisa pública), não vou falar de política, mesmo.

Tem a ver com o fato de que, de repente, perdi o medo de contar as histórias que estão pipocando no meu dia a dia, no meu zap zap, e que tem a ver com o medo, que perdi, de que algumas pessoas lessem ou vissem meu modus vivendi: como eu vivo, acordo, durmo, como ao meu modo, me permito viver, todos os dias, uma história diferente. Sem medo de que me julguem. Aliás, quanto a isso, estou certa e segura: esteja certo que, óbvia e inevitavelmente, você será julgado sempre, mas a conclusão para isso é: fo-da-se o que vão pensar.

Me disseram, ontem ou hoje, que blogs têm efeito terapêutico. Eu, quando criei isso aqui, não tinha isso nem como último item de uma possível lista de motivos que me pudessem me levar a criar um blog.

Aliás, se bem me lembro, e agora estou me lembrando bem, criei essa merda aqui prá postar pensamentos, anotações de possíveis letras de músicas, e possíveis insights antropológicas para futuras pesquisas de campo, ou quaisquer bobagens e besteiras que me passassem pela cabeça, como, por exemplo, trechos mal lembrados de sonhos extremamente espetaculares que tenho quase todos os dias, mas dos quais, infelizmente, costumo me lembrar muito pouco, enfim.

Era mais para ser uma espécie de caderninho virtual do que algo para publicar ou entreter alguém.

Mas, porém, de ontem prá hoje, devido a um montão de coisas, passei a considerar seriamente a observação sobre o tal efeito terapêutico do blog, já que, segundo essa pessoa que me aconselhou, eu sou muito sensível e preciso me expressar de alguma forma. Ok...concordo até certo ponto que eu seja assim e tenho meus motivos.

E pesou, também, um outro fator, muito importante, que talvez tenha sido "o" fator decisivo: o fator homus economicus pesou, não no sentido antropológico estruturalista francês, de Louis Dumont (e que ele e a "comunidade" me perdoem a brincadeirinha com o nome de sua mais famosa e clássica obra).

O fato é que o fator dinheiro pesou. Vivemos numa sociedade totalmente orientada para as relações de poder ditadas pelo capital, para o consumo de bens desnecessários e de serviços cada vez mais especializados.

No momento atual, falta-me "caráter" ($) para fazer sessões de terapia que, em bons ou ruins consultórios brasilienses, chegam a custar em torno de R$ 150 a 250 Dilmas, por meros cinquenta minutinhos de desabafos e chororôs. E, já que é assim, resolvi testar o potencial e o suposto efeito Rivotril do blog (blergh!).

O efeito terapêutico de um blog pode até ser verdadeiro, mas, no fundo no fundo, também tinha vontade de contar histórias que se passam comigo todos os dias, inevitavelmente. E essas muitas histórias, que simplesmente acontecem e caem no meu colo do nada, me fazem pensar muito sobre casos e acasos, coincidências e destinos, horas e momentos, coisa certa na hora errada, ou coisa errada na hora certa, e vice-versa, estalos, cliques, paralisias, cansaços, fome e sono.

Tudo isso acontece com todo mundo todos os dias, mas nem todo mundo presta atenção aos detalhes e nem sente necessidade de se expressar de alguma forma. Eu sempre achei que escrever não tinha muito tanto a ver comigo quanto cantar...mas pode ser que eu tenha me enganado, porque isso é muito divertido, especialmente quando você está sozinho e seus únicos escapes são o teclado, uma garrafa de vinho e uma música.

Sigamos, porque existe uma história por trás dessa (necessária) introdução.

O fato motivador dessa publicação, quer dizer, a "moral da história", permeou toda a fatídica última semana da minha vida, e acabou, sem querer, por comprovar, ou, ao menos, tornar menos mentiroso, ou um pouco mais verdadeiro, ainda que por eficácia simbólica, um velho e famoso dito popular.

Antes, porém, aviso que não sou supersticiosa, não creio em crença alguma, não tenho religião, não faço promessa nem amarração, não adoro imagem alguma (a não ser a do Neil Young quando jovem, e foda-se o trocadalho do carilho).

O fato é que ficou evidente a relação diretamente proporcional entre o meu atual fracasso no campo das relações amorosas e meu atual sucesso na escolha do mundo dos projetos ao qual me lancei sem hesitar, e foi inevitável não lembrar do bom e velho ditado: "sorte no jogo, azar no amor", e verso-vice, rsrs.

Como e porquê diabos essa porra de crença popular pode ser tão verdadeira e funcionar tão perfeitamente?

Trocando em miúdos. Me fudi, mais uma vez, no coração, mas me dei bem demais da conta na porra do(s) projeto(s) e me pus, finalmente, a caminho e no rumo dos meus sonhos. E acho que foi melhor assim, ainda que doa, que seja phoda aguentar determinados momentos e as decisões das outras pessoas, especialmente as que nos desagradam e nos contrariam tanto.

Vejamos pelo lado do saldo positivo, ainda que, em termos de conta corrente, tenha entrado muito poucas Dilmas nos últimos dois meses. Tenho minhas economias, mas elas acabam, assim como a vida, o amor, o tesão, o vinho, a fome e o sono.

Fiz a escolha certa, sem dúvida, mas é que os negócios, ainda que teoricamente tenham tudo para serem bem sucedidos, levam certo tempo para se transformarem em vil metal. O bom é que, nesse processo, descubro que preciso de muito pouco dinheiro, mesmo, prá ser feliz. Aliás, dinheiro pouco eu tenho é muito, e ele traz felicidade! E tenho muitos amigos com dinheiro, ou com nem tanto, e nessa alternância de momentos de riqueza e pobreza, a gente vai um segurando a onda do outro.

E eis que, entre uma euforia e outra dos sucessos que tenho alcançado no campo dos projetos, e entre uma e outra dor de cotovelo, me deparo com uma constatação empírica típica de boteco. Essa constatação, da qual falarei, acabou me lembrando de outra boa e velha (e tanto quanto incomprovada), teoria de que os novatos em qualquer jogo sempre ganham (e eu, de fato, sempre ganhei em jogos que joguei sem conhecer as regras).

Ou seja, me fez lembrar da mística e supersticiosa "sorte de principiante".

E não há no mundo ninguém que eu conheça que já não tenha comprovado isso em algum momento, jogando alguma porra de jogo que nunca tinha jogado antes, por mais imbecil ou complexo que fosse: bilhar, videogame, cartas, dardo, dados, e por aí vai. Joguei bocha a primeira vez e ganhei. Sinuca, bola de gude, forca, bafo e batalha naval, idem...são exemplos idiotas? Podem ser, mas o fato é que isso acontece. E ninguém explica ou comprova empirica e verdadeiramente o porquê. E se você programar uma situação para tentar provar isso, vai dar tudo errado, porque existe outra lei, igualmente inexplicável e infalível que é a Lei de Murphy, ou seja, toda a vez que você finalmente decide perder seu tempo e dinheiro para lavar a porra do carro, inevitavelmente, chove. E ponto.

Me veio então finalmente, e injustificadamente (porque essas coisas são simplesmente irracionais), vontade de procurar aquela pessoa que terminou uma relação muito massa comigo, da noite para o dia, e sem me dar maiores explicações.

E me deu vontade de procurá-lo, por pura vaidade, prá me exibir, prá fazer a "pavoa", tirar vantagem, "me amostrar", não ficar por baixo, ter a falsa ilusão ou  mostrar a ele que, de alguma forma, eu "saí por cima", ou que foi ele quem "saiu perdendo", rsrs, como se isso adiantasse alguma coisa. Ainda que você saiba que nada disso vai mudar os fatos, às vezes, se exibir pro outro dá um prazer do caralho prá quem é vaidoso, ainda que eu não me considere uma pessoa assim. Dá prazer você mostrar prá aquela pessoa que te deu "um toco" que você está se dando bem, e que ele está perdendo por ter desistido de você.

Na verdade, eu acho mesmo era ter sido a primeira a sacar que o bolo estava desandando, e dado o fora primeiro. Perdi o timing e a chance, sou meio lenta prá essas coisas quando elas estão acontecendo. O fato é que os sinais vão sendo mostrados aos poucos, e você precisa estar atento para sacá-los e tomar a decisão antes.

Entre essas e outras, encontro um amigo na rua, tomo uma cerveja, conto o "causo", ainda com o coração meio partido, e ele me fala que essa pessoa que me dispensou, é, na verdade, um grande de um "bucha".

Silêncio total e absoluto para essa nova qualificação, adjetivo, substantivo, verbo, sei lá que porra de gíria é essa. Nunca tinha ouvido. E fiquei muito curiosa, além de ter rido um bocado, porque o definiu muito bem. O bucha é medroso, tem moral cristã e sente muita culpa, ou seja, de certa forma, deu o fora porque não aguentou um montão de coisas, até porque, ele saiu de um casamento de oito anos com uma mulher batista, evangélica, pentecostal, que não bebe, não fuma e fode mal.

E aí foi que se deu a pausa - absolutamente necessária - para que eu entendesse essa nova e belíssima categoria nativa dos cariocas, dita pelo meu reçém-amigo, que fazia dois dias tinha conhecido, e com quem tomei duas ou três cervejas, e que classificou o tal sujeito de "bucha", com base nos pouquíssimos e resumidos fatos que lhe relatei. Foi suficiente para enquadrar o sujeito.

Mas eu precisava me mais detalhes sobre esse qualificador. E o que seria, então, um "bucha"? Há!

Primeiro, uma consideração sobre esse velho-novo amigo carioca. Ele é bom com gírias, mas não sabe explicar absolutamente nada sobre o significado delas. Tive que extrair isso dele, e fazê-lo conseguir me explicar, por meio de exemplos inclusive, o que faria um homem ser classificado por outro homem de "bucha". Sim, porque, é uma depreciação de homem prá homem. Foi um parto fazer isso.

Cariocas não gostam de explicar; eles gostam de ser entendidos, e gostam mais ainda quando rimos deles. E ponto.

A conclusão aproximada a que cheguei é que "bucha" é aquele sujeito que, tendo a faca e o queijo na mão para comer um filé mignon, prefere ir ali, na casa da mamãe e da vovó, tomar canja, limpar a bosta do cachorro e depois, tirar uma soneca no sofá, porque, afinal de contas, é meio de semana e no dia seguinte ele precisa trabalhar. E morre de medo do sermão do chefe...e por aí vai.

Estou sendo elegante.

Prá escrachar, vamos dizer logo que a acepção real de "bucha", no sentido carioca usado pelo meu amigo, é o cara que, tendo uma mulher interessante a fim dele, e da qual ele está declaradamente a fim, simplesmente desiste da história porquê tem variadas espécies de medo, todos tolos e típicos de menino, medos no plural mesmo, medos esses que um carioca (para manter a honra e a fama do carioca) jamais teria.

Esses medos, do que eu pude supor e concluir nesse breve estudo sobre essa nova categoria de homem, são aqueles clássicos conjuntos de medos que toda mulher sabe muito bem reconhecer, justamente quando um homem pula fora.

Tipo assim: o cara saca que a "coisa tá ficando séria" (ao mesmo tempo mais gostosa) e pula fora porque acha que você, mulher que ele está super afim, vai tirar toda a liberdade dele de sair, ou de simplesmente ficar em casa sem fazer nada. Ou ainda, o "bucha" fica muito inseguro porque você contou, entre uma cervejinha e outra, que seu último affair era muito bonito, gostoso, inteligente, alto, artista, pintor, escritor, livre, e talvez tenha deixa escapar que era muito bem dotado e o sexo com ele era incrível.

Eis que, então, depois de dar-lhe um beijo delicioso, você se levanta para ir ao toilette e, quando volta, flagra o "bucha" fuçando seu celular e, ao ser pego, ele diz que fez isso apenas prá se certificar de que estava se envolvendo com alguém que realmente valesse a pena, alguém em quem ele pudesse confiar, sendo que você estava sendo honesta e verdadeira com o "bucha" sobre ter tido outros romances, outras histórias, enfim, sobre o fato de que não nasceu ontem.

O objeto chamado de bucha, como a maioria dos homens sabem, é um acessório usado no âmbito da marcenaria, no ramo das construções civis, dos pequenos consertos domésticos, para instalar prateleiras e coisas do tipo, e até uma mulher sabe que quando se aperta demais uma bucha, ela se esgarça, espana, se arrebenta, ou seja, não aguenta, ainda que você nem tenha feito tanta força assim. Às vezes, nem é tanto questão de força: é que o parafuso era maior do que a bucha.

(Ver: http://guiadobulicosodasgalaxias.wordpress.com/2009/05/27/a-bucha-e-o-parafuso/)

Os "buchas" são, podemos dizer assim, "meninos criados por vós", ou "cocas que poderiam muito bem virar fantas", como diriam outros amigos brasilienses para definir e resumir essa mesma situação.

Mas aí já são outras histórias. E que pena, porque o tal "bucha", era muito bonito e gente boa, mas não o suficiente para lidar com uma mulher de mente livre.

Cest't la fucking vie!

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